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Soja dá suporte à sobrevivência de índios no Paraguai

Grão é nova especialidade dos tradicionais produtores de mandioca, milho e amendoim
mulher e criança trabalho

Eles vivem em meio à mata e não esquecem a tradição da coleta e da caça, mas hoje são reconhecidos como exímios produtores de soja. Os índios de origem aché, da comunidade de Puerto Barra, em Santa Rosa do Monday, a 70 quilômetros de Foz do Iguaçu, moram em uma aldeia na qual a agricultura é o motor da sustentabilidade.

Este ano, os achés colheram 875 toneladas de soja em uma área 209 hectares, uma produtividade recorde de 4,1 mil quilos/ha. Outros 10,3 mil quilos/ha de milho também foram colhidos em uma área de 18 hectares. O plantio e a colheita mecanizados garantem aos índios sobreviver sem precisar receber cestas básicas ou ajuda governamental.

A tradição de agricultores dos achés começou cedo. A aldeia, uma área de 850 hectares onde vivem perto de 170 pessoas, é movida pela lavoura há cerca de 37 anos, desde que foi fundada pelo missionário norte-americano Bjarne Fostervold.

Índio aché com pé de amendoim. Renda da soja dá autonomia à comunidade

Os índios começaram a plantar soja há 12 anos. A aldeia, cuja área destinada a agricultura é de  300 hectares, também tem lavoura de mandioca, melancia, milho e amendoim. O cultivo de mel e a criação de porcos e vaca leiteira complementam a renda das famílias. O dinheiro arrecadado com a agricultura é gerido por um grupo e dividido entre as famílias, em um sistema similar ao cooperativista. O lucro é revertido em alimentos, roupas e aquisição de maquinários.

Para viabilizar o cultivo, os achés têm quatro tratores, caminhonetes, caminhões e uma plantadeira. Na época da colheita, o maquinário é cedido pelo produtor brasileiro Miro Shuster, especialista no cultivo de soja que tem uma propriedade vizinha à dos índios. Com direito a festa batizada de Dia da Colheita. Há mais de 40 anos no Paraguai, Shuster começou a ajudar os achés, com assistência técnica e financeira, há dois anos. “Eu quero ensinar eles a trabalhar”, diz o agricultor.

O aché José Anegi, 26 anos, já se considera um agricultor. Ele aprendeu a lidar com a terra desde criança. Os ensinamentos foram repassados pelo pai, um dos pioneiros da aldeia. Hoje, ele diz que a agricultura salvou a comunidade. “Muitos indígenas querem sobreviver caçando e coletando. Mas essa vida que terminou leva à pobreza”, diz. Para Anegi, os indígenas têm plenas condições de serem agricultores porque hoje a tecnologia facilita a vida no campo.

Escola

Estruturada, a aldeia conta com escola – onde há inclusive aulas de informática –, espaços de lazer  e restaurante comunitário. Pelo menos uma vez por semana ou quando o clima colabora, a aula das crianças é no campo. A atividade, que muda de acordo com a época de plantio, também é realizada na mata, onde é mantida a tradição silvícola dos ancestrais.

Nas últimas semanas, as crianças ajudam na colheita do amendoim. A professora Rosa Brevi, 34 anos, diz que a atividade é importante porque os pequenos aprendem a lidar com a terra. “Eles gostam e entendem que o plantio é importante para que possam comer”, diz. A estudante Fernanda Kambigi, 15 anos, gosta da atividade. “Quero trabalhar para a ‘comida’ poder crescer”, afirma.

Trabalho começou de forma rústica

A comunidade aché de Puer­to Barra foi fundada em 1976 pelo missionário norte-americano Bjarne Fostervold, que vivia com o pai na floresta paraguaia. Ele teria tido uma visão dizendo que precisaria ajudar indígenas no Paraguai. Após várias tentativas, conseguiu contato com os índios na selva e ganhou a confiança deles.

O missionário começou a ensinar técnicas rústicas da agricultura aos índios, até eles passarem a dominar a tecnologia usada hoje. A produção de soja exige conhecimento de sistemas como o plantio direto, disseminado no Paraguai, e domínio de uma série de outras técnicas.

Complexidade

No plantio direto, as sementes são depositadas sem revolvimento do solo. Assim, o controle das ervas daninhas passa a depender do uso de defensivos, de acordo com o tipo de cada planta invasora. O produtor precisa avaliar dosagens e a necessidade de aplicações preventivas.

A escolha das variedades de sementes adaptadas à região é outra tarefa melhor desempenhada por quem possui conhecimento técnico. Cada variedade, por sua vez, tem época de plantio pré-determinado. As diferenças se estendem à duração do ciclo de cada variedade. Antes de iniciar uma nova temporada, os índios precisam ainda analisar o solo para suprir eventuais pontos fracos.

Com tradição nômade, a origem dos achés ainda é desconhecida. Algumas hipóteses indicam que eles são descendentes de vikings,  japoneses ou dissidentes do povo guarani, mas não há comprovação científica.